Bem-vindos ao grande norte!

Barra-Galeão

Hoje, já amanhecemos na casa de nossos amigos em Toronto. Sol, a cidade ao longe e uma manhã preguiçosa. Mas a viagem teve início no dia 28 de maio, com uma conexão Barra da Tijuca-Galeão via táxi. Até aí, nada de mais, não fosse o desafio de encontrar um modo de sair do nosso bairro e chegar ao aeroporto levando duas bicicletas devidamente embaladas em malabikes – malas especialmente desenhadas para transporte de bicicletas.

Tivemos sucesso com uma cooperativa do Shopping Downtown que nos forneceu o telefone de um dos seus cooperados, dono de um Spin, o Peter. Ele foi extremamente atencioso, ligou no dia anterior para confirmar a viagem e estava presente no ponto de embarque com meia hora de antecedência. Será ele a nos esperar no aeroporto na volta para o Rio.

Rio-Panamá-Toronto

A viagem foi tranquila, em um voo com escala no Panamá. Era o tempo justo de fazer a conexão. Ainda que breve, essa experiência do aeroporto do Panamá foi expressiva. Carioca, acostumada com as ruas de Copacabana ou do comércio a céu aberto de Madureira ou do Centro do Rio, a conexão no Panamá elevou o conceito de caótico a um novo patamar. Mesmo assim, a impressão foi positiva. A equipe de atendimento do aeroporto, fazendo uso de equipamentos analógicos e da própria voz ecoando pelo sala de espera, ao invés de microfones e alto-falantes, foi gentil, amável e calorosa.

Após 12 horas de voo, desembarcamos no Aeroporto de Pearson, em Missisauga, à 01:00 da madrugada. A ideia era ir de Mississauga até Toronto pedalando, por isso, decidimos passar a noite em um hotel próximo ao aeroporto. Um serviço gratuito de van nos deixou lá. Nós, nossa bagagem e as bikes.

Primeira pedalada: Mississauga-Toronto

No dia seguinte acordamos mais cedo do que imaginávamos, tomamos café e montamos as bikes. Tirar as bicicletas de dentro dos malabikes depois de uma viagem de avião sempre gera alguma apreensão. Mas, fora pequenos arranhões e alguns raios ligeiramente empenados, tudo certo. Bicicletas montadas, acomodamos os alforjes e partimos.

Saímos do Best Western Plus Toronto (Dixie Road), hotel de beira de estrada, depois de um café da manhã difícil de escolher. Basicamente, o cardápio consistia em variações de frituras, sempre incluindo batata. Estávamos em uma área desolada e industrial, à beira de uma grande avenida, uma espécie de via Dutra, sem acostamento, e com trânsito pesado de caminhões. Tentamos um caminho alternativo que seguia por uma rua secundária por alguns poucos quilômetros até chegar a um parque, que supostamente nos tiraria daquela região.

Achamos o parque, mas era uma área cercada com arame farpado, com portões de acesso indicando o horário para fechar e com muitas placas sinalizando que se tratava de uma área de testes do GTAA e de acesso restrito a pessoal autorizado. Depois de algumas placas de proibido circulação de bicicletas e perigo, decidimos voltar e encarar a “Dutra”.

Fizemos o trajeto usando as calçadas sem pedestres com o objetivo de alcançar o mesmo parque mais adiante, já fora da área de treinamento do GTAA.

Centennial Park – Lambton Woods – Lambton Park – Magwood Park –Etienne Brulé Park – King’s Mill Park – South Humber Park

Após uns 5 km chegamos à entrada do parque Centennial. Lindo, com trilhas de terra e cascalho batido correndo ao longo de um rio. Algumas áreas enlameadas pelo fluxo natural do leito. A gente, quando é de fora, vendo tudo pela primeira vez, acha tudo novidade. Não raro, bate uma incerteza sobre o caminho que se está tomando. Estávamos na dúvida sobre a segurança da travessia pelo parque. De fora, era uma trilha de terra, cercada de “mato”, começando na beira de uma estrada, ao lado de um canteiro de obras. Não demorou para vermos mulheres jovens saindo de dentro do caminho sozinhas. Isso nos acalmou.

Vimos pessoas atravessando para chegar de um ponto a outro e pessoas se exercitando a pé ou de bicicleta. Nos chamou a atenção que tenha nos surpreendido ver tantas mulheres sozinhas e seguras praticando jogging no meio de uma mata desolada. A gente acaba naturalizando o medo.

Ao final dessa primeira sessão, quando deveríamos atravessar uma avenida para retomar o parque do outro lado, encontramos um ciclista. Douglas é um ambientalista e militante por mobilidade ativa. Nos contou que estava no parque para inspecionar a trilha que costeia o rio. Aparentemente, o governo local pretende asfaltar a trilha de terra, e para evitar o alagamento da área com a elevação das águas, o projeto inclui uma barreira de contenção da margem. Segundo Douglas, a comunidade não foi consultada e desaprova esse projeto. A proposta alternativa é que se mantenha a margem do rio como é hoje, preservando a trilha de terra, e que a trilha asfaltada seja construída mais acima, perto da estrada. Nos despedimos e seguimos a pedalada subindo a Rathbun Rd, a Islington Ave., a Anglesey Blvd e a Edenbridge Dr, para entrar no próximo parque, o Lambton Woods (Humber River trail). Deste ponto em diante, seguimos emendando de um parque a outro por todo o caminho até avistar o Humber Bay Arch Bridge e a CN Tower ao longe.

Sheldon Lookout

Antes de atravessar a ponte, paramos no Sheldon Lookout, um mirante com vista para o centro de Toronto. Desde que amanhecemos, fomos surpreendidos com a experiência de pedalar sob a baixíssima umidade da cidade.

Já no início da pedalada, o Fred tinha consumido quase toda a água que carregava com ele e parte da minha. Ele estava cansado, com fome e com sede, a paradinha no mirante foi providencial. Estávamos chamando a atenção com as bicicletas carregadas de alforjes, mochila e equipamento de camping. Viramos uma espécie de atração, e pessoas curiosas se aproximavam para saber de onde vínhamos, para onde iríamos e quem éramos. E como sempre acontece quando se está fora do Brasil, encontramos um casal de brasileiros. Estudantes, planejando imigrar, ambos de Fortaleza – cidade linda. Eles compartilharam a água que tinham com a gente. Uma alegria.

Atravessamos a ponte com o casal e nos separamos quando pegamos o Lake Shore Blvd W. O caminho margeou toda a Humber Bay. O dia lindo foi um presente.

Memoria a Xavier Morgan – menino de 5 anos morto ao cair da ciclovia sobre a autopista.

No caminho, passamos por uma equipe de filmagem fazendo imagens e uma reportagem no que aparentemente era o local onde havia ocorrido recentemente um atropelamento com morte, e que vimos noticiado durante o café da manhã.

Aparentemente, uma criança pedalava com seu avô sobre a ciclovia, que corre ao longo da autopista de alta velocidade. Segundo Douglas, o ambientalista, havia nos informado, a criança teria perdido o equilíbrio e caído na direção da pista de automóveis, sendo atropelada e vindo a óbito. O mesmo Douglas nos contou que é um pleito da população que seja construída uma separação física entre a ciclovia e a via de automóveis, para evitar esse tipo de acidente.

Notícia do acidente, com estatística para mortes de ciclistas envolvendo motoristas de carro em 2017.

http://www.torontosun.com/2017/05/24/5-year-old-boy-killed-in-traffic-mishap

Notícia do acidente destacando a mobilização da população local para uma pedalada no sábado, dia 3/06, com concentração na Dundas-Yonge e saída às 10 horas, conforme nos informaram na Bike Pirates. A pedalada seguiria até o local do acidente, onde os manifestantes deixariam uma ghost bike, e fariam um cordão humano separando a ciclovia da avenida, simbolizando a medida simples que o governo local pode tomar para evitar esse tipo de acidente e morte: uma grade.

http://www.cbc.ca/news/canada/toronto/barrier-martin-goodman-trail-1.4144019

Chamou nossa atenção que mesmo aqui, onde, para nossos padrões, há um alto volume de ciclistas de todo tipo atravessando a cidade, com vias segregadas exclusivas e farta sinalização, ao reportar morte de ciclista no trânsito, o/a motorista é uma figura oculta. O atropelamento é causado pelo automóvel, e não por quem conduz o automóvel.

Quase lá

Após 44 km, estávamos muito perto de nosso destino. Deixamos a Lake Shore e paramos para um café no Mercury Expresso Bar em Leslieville. Eram sete da noite, apesar do sol no céu. Eles já haviam fechado, mas mesmo assim nos serviram os cafés com leite e os croissants para comermos no banco em frente ao café. Também pudemos fazer uso do WIFI, que estava liberado mesmo que não houvesse consumo. Dali até o bairro Grego, onde fica o apartamento de nossos amigos, foi um giro.

Os amigos

 Chegamos e eles estavam na portaria nos esperando. Uma alegria revê-los. Agora, vamos passar uma semana em Toronto, onde comemoraremos o aniversário do Fred no dia 04. Dia 07, retomamos o pedal com destino à Barrie. Provavelmente, só retomo as postagens então.

Nesse meio tempo, é curtir os amigos e explorar Toronto de bicicleta, é claro.

Assim que me organizar eu posto imagens para ilustrar.
bike-sandra

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